O Nó da Liberdade

Geralmente associamos a liberdade a um movimento de desatar nós, amarras, correntes, soltura, enfim. Mas levei um “contragolpe” que ironicamente me libertou através de muitos nós.

Explico. Sempre procurei praticar esportes, muito mais pela questão da importância de manter a saúde do que pelo gosto de se exercitar. Porém, sempre me incomodava a repetição, a monotonia, a sensação de perda de tempo ocasionada pela falta de um objetivo evolutivamente mensurável e relevante para a prática do que já tinha feito, seja em academias de musculação ou praticando corrida. Hoje chego a questionar se alguns exercícios são benéficos ou verdadeiros destruidores de articulações.

Até que conheci o Kung-Fu. Gostei e resolvi levar a sério. Encontrei prazer porque houve evolução. Ao invés de “ganhar músculos”, ganhei tônus muscular, resistência, força, equilíbrio, um aumento expressivo em alongamento, reflexo, maior controle emocional. Mas o melhor estava por vir: a filosofia, a sabedoria embutida em cada detalhe, na regra inflexível de disciplina que nos prepara para sermos campeões não apenas no tatame, mas principalmente na vida.

Quando vemos pessoas com idade às vezes muito inferior a nossa ou bem superior fazendo coisas que só o esforço de anos será capaz de nos aproximar daquelas habilidades, aprendemos rapidamente o que é respeito, generosidade, disciplina, paciência e principalmente humildade.

Mas o que sacolejou meu emocional, onde posso dizer que aconteceu uma catarse, foi perceber de maneira muito clara que o passado já passou. E a essa experiência chamei de NÓ DA LIBERDADE.

Quando fiz meu primeiro exame de Kung-Fu para mudar da faixa branca para a amarela, pensei em fazer uma espécie de quadro ou mural onde colocaria organizadamente todas as faixas que tinham feito parte do meu passado. Mas aí veio o inesperado: entrei em aula, subi no tatame e fui aplaudido por ter passado no exame. A instrutora trouxe minha faixa nova e enquanto trocava de categoria, minha faixa branca, que tinha acabado de tirar da cintura e feito planos nostálgicos, era arremessada de mão em mão onde cada aluno dava nós, nós sobre nós, com a maior força possível, até que a faixa de aproximadamente 3 metros de comprimento se tornou algo parecido com uma bolinha de pano dura e era chutada de um lado para o outro. Meu desconforto só não foi maior e mais evidente porque havia um conforto enorme na conquista de amarrar a nova faixa na cintura. E aos poucos, esse desconforto começou a dar lugar para a sabedoria daquele gesto, até que outro instrutor me entregou a bolinha de pano e disse: “Vai levar embora? Isso não é mais você”.

A palavra nostalgia vem do grego que significa nóstos (reencontro) e álgos (dor, sofrimento). Naquele momento ficou muito claro que eu não precisava guardar, muito menos colecionar nada que me fizesse reencontrar ou lembrar nenhuma dor nem qualquer sofrimento do passado. Que aquela fase (faixa) foi superada.

Aprendi percebendo que é desperdício de energia olhar para trás. E essa mesma energia, quando focada no lugar certo, constrói o futuro ou, para os nostálgicos, levará apenas a repetir o passado.